terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Olhando para trás

«Em 1927 a escritora Virgínia de Castro e Almeida, considerando que existiam então em Portugal 75% de analfabetos, dizia no jornal “O Século”, que ‘A parte mais linda, mais forte e mais saudável da alma portuguesa reside nesses 75 por cento de analfabetos’. Em alusão aos rurais que aprenderam as primeiras letras, pergunta a escritora, e responde: ‘que vantagens foram buscar à escola? Nenhumas. Nada ganharam. Perderam tudo. Felizes os que esqueceram as letras e voltam à enxada’. João Ameal, escritor e historiador muito cotado na época, deixou escrito: ‘Portugal não necessita de escolas (…) Ensinar a ler é corromper o atavismo da raça.’» (Rómulo de Carvalho, in “História do Ensino em Portugal”, Fund. Calouste Gulbenkian, Lisboa 1986).

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Gatos

sábado, 17 de Outubro de 2009

A bela princesa




A Princesa Santa Joana (Lisboa, 1452 – Aveiro, 12-5-1490) ficou para sempre ligada à memória de Aveiro, a “Lisboa-a-pequena”, segundo as palavras dela. Podemos perceber essa relação visitando a cidade nos dias próximos do feriado em honra da filha de D. Afonso V, o Africano, e ver quanto a devoção é comum a todos os aveirenses. A completar a visita está naturalmente a ida ao Mosteiro de Jesus, convento dominicano feminino, hoje museu municipal, e admirar a cela da jovem enclausurada numa tarde quente de Agosto de 1472. A bela Princesa teve uma visão desassombrada da idade e legou um testemunho da mais alta devoção. Para a História ficou uma Corte surpreendida e renitente - foi herdeira jurada do trono de Portugal até ao nascimento do futuro D. João II -, uma vida que nos revela a súmula da nossa aristocracia quinhentista, essa linhagem que pairava e sabia nivelar de facto as ambições de todas as classes e corporações.
Uma das obras-primas da arte portuguesa é o retrato da infanta, patente no Museu, e atribuído com reticências a Nuno Gonçalves (óleo sobre madeira de carvalho, séc. XV, 60x40 cm).

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

Sardinhas boémias

- “Sim, as sardinhas dormem, explica-nos o pai ‘Manso’. E levantam-se tarde. Já as cavalas são mais madrugadoras. A sardinha não recusa uma boa noitada. ‘Sabe, quando vamos com os amigos, à noite, beber uns canecos… Já não nos víamos há tanto tempo e tal… Chega aí uma hora. Lá para as cinco, seis da manhã, em que dá uma dormência… a gente tem de se encostar um bocado… pois com a sardinha é a mesma coisa’. É a hora certa para as apanhar, às sardinhas boémias. Grogues do sono e da ressaca, deixam-se cair nas redes sem resistência. Mesmo quando dormem, meio enterradas na areia, dir-se-ia que para iludir os sonares das traineiras, acordam rabugentas, talvez por andarem com o sono trocado. Têm manhãs difíceis em que tudo lhes corre mal e acabam na rede de algum pescador. As cavalas levantam-se mais cedo, mas igualmente estremunhadas. Começam o dia com uma euforia apalermada e zás!, quando menos esperam, estão na rede. Já as corvinas têm um sono mais pesado e quando acordam estão em plena forma. Fernando ‘Manso’ lembra-se de que, quando as havia em abundância na costa de Sesimbra, era possível ouvi-las a ressonar, encostando o ouvido ao fundo do bote. ‘Os peixes são como as pessoas. Têm os seus hábitos, as suas manias. Se os conhecermos, se vivermos com eles, temos mais hipóteses de os apanhar. O sargo vê um anzol e não vai lá porque sabe que está ali um pescador. E se apanharmos um, temos de lavar as mãos ao pôr o isco de novo, ou não apanhamos mais nenhum. Eles sentem o cheiro e sabem. Os sargos andam sempre junto à costa. Dizemos que eles gostam de ver passar os automóveis. Aí são muito difíceis de apanhar. Escondem-se nos rochedos. Uma vez dei com um com a cabeça de fora, a olhar para mim, como quem diz: ’queres apanhar-me? Pois anda cá a ver se eu deixo?’ Pois também no caso dos sargos, o que é preciso é conhecê-los. Após a desova, metem-se em cardume pelo mar dentro, onde se apanham com toda a facilidade. Por que tomam eles esta atitude imprudente, é um mistério. ‘As mulheres quando engravidam também têm desejos extravagantes. Apetece-lhes comer carvão e coisas assim. Com o peixe é a mesma coisa. Deixam os filhos e pensam: vocês já aí estão, a gente agora vai dar uma volta. Não sei se é loucura do peixe’…(…)
‘Vivia com o peixe’, ‘sonhava com o peixe’, ‘tinha o peixe nos olhos’. Para Fernando ‘Manso’, tudo são sinais, mensagens. A lua indica a direcção em que se deslocam os peixes. ‘Têm medo da luz, e vão para a fundura. Se estiver escuro, pensam que ninguém os vê’. Um gato a lamber as patas indica a direcção do vento, mesmo quando ainda não há vento. Há momentos em que o peixe se ‘manifesta’. São os ‘ensejos’. Quando o dia dá lugar à noite é um bom ensejo. Quando o sol se põe em ‘olho de boi’ é um bom ensejo. Os quartos de lua são bons ensejos. A lua a meter-se na água é um bom ensejo. A hora em que a ‘lua não tem força’ é um bom ensejo. Há uma telepatia com os peixes. ‘Às vezes eu via-os em pensamento. Chegava ao local e eles estavam lá à minha espera’. Há fenómenos inexplicáveis. Certos dias o peixe parece que está hipnotizado, deixa-se apanhar às toneladas. No dia seguinte, é certo que vem uma tempestade. ‘Como é que o peixe sabia?’ Quando se atira peixe ao mar, deixa de haver vida naquela área. ‘O peixe não gosta de ver mortos’.(…)
Há analogias misteriosas. ‘Os peixes deslocam-se no mar como os pássaros no céu, em fila. Basta olhar o céu para saber o que se passa no mar’. As várias espécies têm comportamentos próprios. ‘A sardinha vai às zonas com rochas, para se alimentar, passar a noite, como nós vamos ao café. Depois volta para a profundidade, porque se acha insegura ali. O carapau gosta de ficar no mesmo sítio. Junto ao fundo, a comer areia. A sardinha é um peixe friorento. No Inverno, vai para o fundo, onde as águas são mais quentes. No Verão, anda à superfície. O robalo e o carapau não vêm tanto cá acima’” (in revista “Pública”, nº394, 14 de Dezembro de 2003).

segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

Jardins racionais



Nesta gândara onde estou, ao meio-dia, com céu limpo e Sol tórrido, entre a floresta mas a dois passos da povoação, o solo não é de areia branca e fina, mas de torrões duros e escuros.
Deste arvoredo plantado e ordenado pelos homens em terrenos demarcados ao longo do tempo, nasceram as áleas e os corredores dos outros jardins monumentais e intelectuais.

sábado, 26 de Setembro de 2009

"Ri-te, mar"

O “Diário” de Mário Sacramento tem abundantes impressões do meio social e artístico português dos anos 60 do século XX, incluindo marcadas divergências com figuras do lugar da oposição. O conhecido escritor e médico gastrenterologista justifica o diarismo como profiláctico, interpelante do ensimesmamento decorrente da decomposição da saúde, do exercício galénico e das contrariedades da militância.
Curiosamente, Sacramento admitiu a possibilidade de se candidatar a médico interno do Hospital Rovisco Pais da Tocha. É dele o poema escrito durante estadia em São Pedro de Moel:

«Estou triste – e o mar ri-se.
Abre a boca e casquina.
Vem de longe,
arrepanhando a face,
e despeja a gargalhada sobre a praia.
E eu triste.
Triste porquê?
Não me coroa o Sol?
Não oiço vozes de crianças
contrapondo a do mar?
Quero ser o que vejo e não sou nada!
Ilha sem faroleiro…
Ave submersa em cobalto…
Ri-te, mar,
rebola o ventre, galhofeiro!
Se não te risses,
quem me diria o que sou?
Se não fosses contente,
que preço teria a tristeza?
Retrista-me com o teu riso,
para que eu te seja.»

quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

"Só Deus!"

A primeira pintura que me lembro de admirar foi “Só Deus!” (1856, óleo sobre tela, 120x154 cm, Museu do Chiado, Lisboa) de Francisco Augusto Metrass (Lisboa, 7-2-1825 – 14-2-1861). Vejo uma ideia bem concebida e conforme o culto do matriarcado português; todavia, as cores frias, o enquadramento, a feição das figuras, tudo parece ter uma atmosfera estrangeira. Isto deve-se, sei-o agora, à ascendência alemã do artista, e, bem assim, ao ensino dos mestres germânicos da “escola mística” de Overbeck e Cornelius.

segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

"Calendário Perpétuo"

«SETEMBRO

No mar largo adormecido
descai o Sol Poente,
e um pescador distraído
voga na barca indolente.

E ao marulhar arquejante
das vagas, o pescador,
canta uma canção anelante
dum melancólico amor.»


David Dinis

quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

As diferentes estações


O Verão tem a sua faceta sebastianista.
Parece dizer, «morrer, sim, mas devagar...»

terça-feira, 15 de Setembro de 2009

"O amigo do povo"

«Muitas vezes penso que a impopularidade é condição fundamental, e imprescindível, do verdadeiro amigo do povo, daquele que verdadeiramente o considera e lhe respeita a dignidade humana. Sei quanto tal conceito parecerá paradoxal e avalio bem a sua especiosidade. Prossigo, porém.
Amar o povo consiste primacialmente em desejar libertá-lo da sua condição de “massa”, investindo-o cada vez mais da consciência da sua dignidade humana; consiste em não o considerar um rebanho, mas um conjunto de inteligências e de vontades que conscientemente se podem e devem afirmar.
Um tal amor implica grande respeito do amigo do povo por si mesmo, pelo povo e consciência profunda da eminente dignidade da obra social a que se votou.
Não basta desejar melhorar as condições económicas do povo, pois que essa melhoria é um simples meio e é criminoso ou é estulto tomar o meio como fim. Além disso, tal melhoria é inevitável e não é possível compreender a continuação da marcha da humanidade sem que tal se realize. A transformação económica do mundo tem a inevitabilidade do que é fatal, e verdadeiramente todos nela somos agentes – mesmo, senão principalmente, os que se lhe querem opôr.
Não é verdadeiramente amigo do povo aquele que julga ou quere inculcar ao povo que lhe basta a melhoria material. Se não consideráramos no homem acima de tudo o espírito, inevitavelmente o teremos de considerar simples máquina de produção de estrume. E é considerá-lo bem pouco. De resto, o direito dos próprios bens materiais é o espírito que o afirma e sustenta, porque a necessidade apenas deseja satisfazer-se e, satisfeita, repousa na digestão ou no sono.
O verdadeiro amigo do povo não se atém, pois, à questão económica; vai além dela e o que acima de tudo lhe interessa é a progressiva "aristocratização" do povo pela revelação, desenvolvimento e aproveitamento de todas as capacidades superiores que ele contém.
Por isso, o pedagogo ama melhor o povo que o tribuno, porque o pedagogo não lhe diz, como o tribuno, aquilo que o lisonjeia ou lhe apraz - mas tão-somente aquilo que lhe convém.
Lisonjear o povo é sempre atraiçoá-lo, e nada menos digno do que, para lhe agradar, vir participar das suas inferioridades apontando-lhas como virtudes, assim como nada é menos cortês que vir falar-lhe a sua linguagem. Amar o povo não é descer até ele - é fazê-lo elevar aos mais cultos. É o espectáculo da altitude que suscita o desejo de ascenção - é o espectáculo da verdadeira grandeza que desperta a inconformidade com a nossa pequenez. Só o que é verdadeiramente grande é capaz de ser dignamente amigo do povo, porque só ele terá ânimo para o servir sem cair na tentação da recompensa - porque só ele, pelo exemplo, lhe pode revelar a extraordinária capacidade de grandeza de que é capaz o homem.» - José Adjuto CASTELO-BRANCO CHAVES (Lisboa, 2-1-1900 - 1992), no quinzenário "Sol Nascente" (Porto, 1937).