
«Muitas vezes penso que a impopularidade é condição fundamental, e imprescindível, do verdadeiro amigo do povo, daquele que verdadeiramente o considera e lhe respeita a dignidade humana. Sei quanto tal conceito parecerá paradoxal e avalio bem a sua especiosidade. Prossigo, porém.
Amar o povo consiste primacialmente em desejar libertá-lo da sua condição de “massa”, investindo-o cada vez mais da consciência da sua dignidade humana; consiste em não o considerar um rebanho, mas um conjunto de inteligências e de vontades que conscientemente se podem e devem afirmar.
Um tal amor implica grande respeito do amigo do povo por si mesmo, pelo povo e consciência profunda da eminente dignidade da obra social a que se votou.
Não basta desejar melhorar as condições económicas do povo, pois que essa melhoria é um simples meio e é criminoso ou é estulto tomar o meio como fim. Além disso, tal melhoria é inevitável e não é possível compreender a continuação da marcha da humanidade sem que tal se realize. A transformação económica do mundo tem a inevitabilidade do que é fatal, e verdadeiramente todos nela somos agentes – mesmo, senão principalmente, os que se lhe querem opôr.
Não é verdadeiramente amigo do povo aquele que julga ou quere inculcar ao povo que lhe basta a melhoria material. Se não consideráramos no homem acima de tudo o espírito, inevitavelmente o teremos de considerar simples máquina de produção de estrume. E é considerá-lo bem pouco. De resto, o direito dos próprios bens materiais é o espírito que o afirma e sustenta, porque a necessidade apenas deseja satisfazer-se e, satisfeita, repousa na digestão ou no sono.
O verdadeiro amigo do povo não se atém, pois, à questão económica; vai além dela e o que acima de tudo lhe interessa é a progressiva "aristocratização" do povo pela revelação, desenvolvimento e aproveitamento de todas as capacidades superiores que ele contém.
Por isso, o pedagogo ama melhor o povo que o tribuno, porque o pedagogo não lhe diz, como o tribuno, aquilo que o lisonjeia ou lhe apraz - mas tão-somente aquilo que lhe convém.
Lisonjear o povo é sempre atraiçoá-lo, e nada menos digno do que, para lhe agradar, vir participar das suas inferioridades apontando-lhas como virtudes, assim como nada é menos cortês que vir falar-lhe a sua linguagem. Amar o povo não é descer até ele - é fazê-lo elevar aos mais cultos. É o espectáculo da altitude que suscita o desejo de ascenção - é o espectáculo da verdadeira grandeza que desperta a inconformidade com a nossa pequenez. Só o que é verdadeiramente grande é capaz de ser dignamente amigo do povo, porque só ele terá ânimo para o servir sem cair na tentação da recompensa - porque só ele, pelo exemplo, lhe pode revelar a extraordinária capacidade de grandeza de que é capaz o homem.» - José Adjuto CASTELO-BRANCO CHAVES (Lisboa, 2-1-1900 - 1992), no quinzenário "Sol Nascente" (Porto, 1937).